terça-feira, 14 de dezembro de 2010


"Tudo me atinge - vejo demais, ouço demais, tudo exige demais de mim".

Clarice Lispector

"Tenho feito descobertas importantes, por exemplo: o pecado é simplesmente tudo o que Cristo não fez. (...) Tenho tido muitas oportunidades de ficar calado. (...) Tenho tido vontade de voltar. (...) Tenho certeza que não volto mais".

Carta de Fernando Sabino para Clarice Lispector

"Melhor levar para o lado do riso do que para o stadenervos, certo? Aí vai, aos trancos, mas vai (...) Recito Fernando Pessoa - "Tudo vale a pena/ se a alma não é pequena", dez vezes ao dia, gasto toneladas de incenso, sacas de sal grosso. E vamos levando. Se ficar heavy metal demais, dou o fora".

Caio F. Abreu in "Cartas".

"Estude, faça suas coisas, vá para Petrópolis, olhe as pessoas. Não fique pensando em mim, não fique esperando nada de mim, não invente estórias".

Caio Fernando Abreu in "Cartas"

“E a noite eu ainda te espero, mesmo quando sei que você não virá, só para ter saudade”.

Caio Fernando Abreu.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Nada entendo de signos:
se digo flor é flor, se digo àgua é água.
( Mas pode ser disfarce de um segredo.)
Se não podem sentir, não torçam
a arvore-de-coral do meu silêncio:
deixem que eu represente meu papel.
Não me queiram prender como a um inseto
no alfinete da interpretação:
se não me podem amar, me esqueçam.
Sou uma mulher sozinha num palco,
e já me pesa demais todo esse ofício.
Basta que a torturada vida das palavras
deite seu fogo ou mel na folha quieta,
num texto qualquer com o meu nome embaixo.

Lya Luft
“Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso, e que é justamente, no momento mais suave, o primeiro encontro, o primeiro olhar, que a separação começa a existir. Eu prefiro acreditar que a separação nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um instante que se repete, a cada espera, a cada volta. Cada vez que sinto a tua falta, cada vez que pronuncio o teu nome. Eu acredito que ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu seja capaz de fazer com que você se vire e olhe, e sem perceber, estenda entre nós um atalho, uma ponte".

Carola Saavedra in "Flores Azuis".

"Porque preso no passado se morre a cada dia. E quanto a mim, eu prefiro viver. Ainda".

Do filme: Cabo do Medo - direção de David Lynch.
“Vai depender de cada um de nós que sua vida seja território seu ou apenas emprestado.
[...]
Que seja campo para correr perseguindo projetos e colhendo vivências, ou cova estreita onde agente se esconde e aguarda o golpe final”.

Lya Luft
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério.

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

domingo, 12 de dezembro de 2010


“Submeto-me e sinto-me quase alegre.
Quase alegre como quem
se cansa de estar triste.”


Fernando Pessoa
Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquando não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.

Fernando Pessoa


“O que há de se fazer com a verdade
de que todo mundo é um pouco triste
e um pouco só?”


Clarice Lispector, in A Hora da Estrela

“Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.”


Caio F. Abreu
"Sei lá, que eu ando. Muito triste. Uma merda, tudo isso. Mas não importa, não me interrompa agora. Deixa eu falar, por favor, deixa eu falar. Tem uma coisa dentro de mim que continua dormindo quando eu acordo, lá longe de mim. (…) agora vou ter que voltar a pé para casa mas que importa, volto a pé mesmo, pode ser até que acorde um pouco e aquela coisa lá longe volte pra perto de mim."

Caio F.Abreu in “Pêra, Uva ou Maça”

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial

(...)

Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.

Adriana Calcanhoto

Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
ventos sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me cristal segura.


Cecília Meireles

"Ela, na sua magnífica força e coragem,
aprendeu a ser livre;
a gritar quando tem vontade,
a chorar quando precisar chorar
e a sorrir mesmo quando a situação não permitir sorrir."

Clarice Lispector
“Mais tarde eu saberia que certas experiências se partilham -
até mesmo sem palavras – só com gente da mesma raça.
O que não significa nem cor nem formato de olho
nem tipo de cabelo,
mas o indefinível parentesco da alma.”

Lya Luft

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


"Todo o amor é uma prisão, minha querida, uma prisão inventada por nós contra a escancarada brutalidade da vida".

(Inês Pedrosa)

"Queres dizer que sou uma exagerada, e é verdade. Temos de carregar nos contornos do mundo se pretendemos sacudi-lo".

(Inês Pedrosa)

"A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar."

(Clarice Lispector in “A hora da estrela”)

"Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe… Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca… Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade."

Mário Quintana in “Sapato florido”

Oh! não há nada como um pé depois do outro…

(Mário Quintana in “Sapato florido”)

"A vida não está aí apenas para ser suportada ou vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada.
Não é preciso realizar nada de espetacular.
Mas que o mínimo seja o máximo que a gente conseguiu fazer consigo mesmo."

Lya Luft.

"O tempo me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da vida: cultivo alegrias num jardim onde estamos eu, os sonhos idos, os velhos amores e seus segredos.
E a esperança – que retrilha como pedrinhas de cores entre as raízes"

Lya Luft in Secreta mirada
Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.
É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.

Lya Luft.
Valentim era, como eu, sozinho. Eu tinha sido traída por uma pessoa, ele pelo destino. Mas, ao contrário de mim, não conseguia deixar partir de verdade quem se fora.
Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente. Ele não estava curado.
(…)
Acordo com Valentim ao meu lado. Passo de leve a mão em seu rosto adormecido, acompanho com o dedo o contorno de sua boca, beijo seu ombro e me aconchego mais nele: aqui é o meu lugar no mundo. E o dele também. Do nosso jeito, estamos construindo – mais uma vez – a vida.
A dor faz parte.

Lya Luft in “O silêncio dos amantes”

“A quietude perturba.
O recolhimento intriga e incomoda os demais:
Ela deve estar doente, deve estar mal,
vai ver é depressão, quem sabe um drinquezinho,
um novo amante, um novo namorado.”

(Lya Luft)
(...)

O fato de não ter sido é mais trabalhoso
do que a fama. Prossegui a me imaginar,
sondando o que poderia ter vivido.
Disperso, anônimo, no comício do mar
e nas trevas.

Diminuindo o risco, reduzimos a possibilidade
de nos libertar. O medo, o medo, o medo
é o que nos faz escolher.

Descobre-se um amor
na iminência de perdê-lo.

(Carpinejar)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010


"Sim, porque ao meu redor tudo continua o mesmo. É uma idéia que me dói – dor-de-idéia que não é para ser curada. É para ser sofrida. Saber sofrer é parte da sabedoria de viver."

(Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Dor-de-Idéia”)

"Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus."

(Clarice Lispector in “A hora da estrela”)

"Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição."

(Clarice Lispector in “A hora da estrela”)

"E quero aceitar minha liberdade sem pensar o que muitos acham: que existir é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece. Existir não é lógico."

(Clarice Lispector in “A hora da estrela”)
Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.

(Caio F. Abreu in “Os Dragões não Conhecem o paraíso”)